segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Brasil e Alemanha, distantes no futebol e no combate à homofobia

Por Carlos Humberto


Atuais campeões mundiais de futebol, os dirigentes da Alemanha estão na vanguarda na luta contra o preconceito e a homofobia nos campos das terras bavárias. 
Desde 2012, os clubes que disputam a Bundesliga, o campeonato nacional de lá, orientam os torcedores a não gritarem cantos homofóbicos nos estádios.


Thomas Hitzlsperger, defendeu a Alemanha por seis anos e se declarou gay em 2014 (Fotxo: Associated Press)
A campanha se consolidou no ano seguinte quando a Deutscher Fussball-Bund, correspondente à nossa CBF, publicou uma cartilha incentivando os jogadores a assumirem sua homossexualidade. 
Considerada ousada pelo mundo machista do esporte, em especial o futebol, o documento de 28 páginas, intitulado “Homossexualismo e o futebol”, foi distribuído para mais de 20 mil clubes do país.
Surpreendentemente, o guia foi bem recebido entre atletas, técnicos, dirigentes, formadores de opinião e o torcedor de uma maneira geral. O exemplo alemão é seguido nos Estados Unidos, onde campanhas similares são endossadas por clubes, federações e governo.
Ao invés de um guia, a Liga Norte-Americana de Futebol (MLS), se engajou na campanha “You Can Play”, que incentiva esportistas gays a exporem sua orientação sexual.

Robbie Rogers, jogador americano que luta contra a homofobia no esporte (Foto: Getty Images)
Se na experiência alemã, Thomas Hitzlsperger, meia que defendeu a seleção de 2004 a 2010 teve a coragem de desafiar a intolerância ao se declarar homossexual em 2014, o californiano Robbie Rogers, 26 anos, é o precursor americano a seguir o mesmo caminho.
Não é fácil para o atleta tornar público sua preferência sexual, não importa qual seja o esporte que pratique. Essa decisão implica em sérias consequências que podem pôr fim a uma carreira brilhante e promissora.
Romper essa barreira é um ato de muita coragem para qualquer atleta, explica Gerd Dembowski, sociólogo da Universidade de Hannover e consultor da DFB: "O guia é para os atletas, para dirigentes e técnicos também. É para mostrar como eles podem sair do armário, como agir com a pressão da mídia. Mas, mais do que os jogadores, é para ajudar os dirigentes, os técnicos sobre o que eles devem falar, que mensagem devem passar".
Contratos milionários podem ser cancelados e vínculos com o clube rompidos. Para estes, ter em seu elenco atletas declaradamente gays “mancham a imagem do clube” e “afugentam investidores”, diz o consultor de marketing esportivo Amir Somoggi.
Para o jogador, amedronta muito mais o grito que vem da arquibancada, da rejeição popular.
Assim como o futebol mostrado na última Copa do Mundo, o Brasil está longe de iniciativas como a que os alemães e americanos ensinam.
Por aqui, o selinho do atacante Emerson Sheik no amigo foi alvo de deboche nacional – “a Hebe voltou” -, e ele teve que se explicar para sua torcida e companheiros de time.
Hoje defendendo o Vitória da Bahia, o polivalente Richarlyson sofre patrulha desde quando atuava no São Paulo. Sem nunca ter se declarado gay, já processou dirigentes e também conviveu com a indiferença da torcida tricolor que não gritava seu nome quando era anunciada sua escalação.
Na contramão do que prega os alemães e americanos, o presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, o ex-goleiro Rinaldo Martolelli, faz ressalvas em entrevista concedida à Revista Placar, da Editora Abril: “Não aconselharia nenhum jogador a se assumir. É algo que traria muito desgaste à carreira”.
Para o diretor da Camisa 12, organizada do Corinthians Paulista, Marco Antonio Capão, no seu clube “é lugar de macho”. 
A própria justiça tem visão particular sobre o tema. Segundo o juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, “futebol é jogo viril, varonil, não homossexual”, escreveu em sentença.
Em âmbito local, o tema passa ao largo das preocupações de autoridades, pais, dirigentes, técnicos e da mídia. Inexiste qualquer estudo nesse sentido.
Casos comprovados, são tratados como mais uma história picante que vai abastecer o livro do folclore esportivo.
A proximidade entre os personagens envolvidos e até mesmo o medo de se envolver em problemas que “não é da minha conta” funcionam como barreiras invisíveis e tornam a pesquisa impossível de ser realizada.
É uma tremenda bola fora.

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