O perigoso caminho do estrelato no futebol
Num passado não muito
distante, o sonho de todo pai de família era colocar o filho numa faculdade e
depois exibir orgulhoso o diploma de médico, engenheiro ou advogado pendurado
na parede da sala, local de maior destaque da casa.
Os tempos são outros, e o anel de doutor conquistado no mundo acadêmico, embora continue prestigiado, não atrai tanto quanto a busca pela fama e a fortuna prometida pelo mundo do futebol. A atração exercida pela glória fácil, no entanto, parece ofuscar a visão daqueles que deveriam proteger, e expõem seus filhos ao alcance dos tentáculos de aliciadores, empresários e falsos olheiros.
De acordo com reportagem do jornalista Breiller Pires da revista Placar, as categorias de base do futebol brasileiros se transformaram em antro de abuso sexual.
Os primos de
Presidente Prudente foram vítimas de aliciadores (Foto: Placar)
Os números são
assustadores e a revista revela que não há dados oficiais sobre a violência sexual no futebol brasileiro. Para produzir a amostragem, a publicação se valeu
de ocorrências policiais lavradas em delegacias do país para traçar o que ela
chama de “O mapa do abuso”. Tratado como praga nacional, foram listados 103
crianças e adolescentes envolvidas em todas as regiões do país entre 2010 e
2012: menores abusados, 37; idade média das vítimas, 14 anos; 900 reais é
quanto as famílias chegaram a pagar a estelionatários que mantinham filhos em
alojamentos.
No tocante a casos de abusos, Minas Gerais é o estado campeão, seguido pelo Pará e São Paulo. Os jovens traficados partem do Nordeste em sua maioria.
E pensar que para
propiciar ao filho a chance de atuar em um grande clube, a família se sacrifica
para pagar a intermediários valores que por vezes não possuem. É o caso do mecânico
Heraldo, citado na matéria, que viu filho e sobrinho de 16 anos saírem de
Presidente Prudente, interior de São Paulo, para embarcar na promessa de
Reginaldo Pinheiro, que se apresentava como doutor mas ficou conhecido como
“dopador de Aracaju”. Reginaldo não era médico nem empresário, apenas mais um
aliciador a ser preso pela ação policial de Sergipe.
Mercado emergente
Na década de 1995, o futebol de Juazeiro se profissionalizou com a criação do Juazeiro Social Clube. Como mercado emergente, atrai desde então a atenção de olheiros em busca de novas revelações, a exemplo de Daniel Alves, no início dos anos 2000, e Petros e Nixon, entre outros, recentemente.
O reflexo disso é o surgimento e proliferação das chamadas escolinhas de futebol, coordenadas por “professores” de conhecimento e, principalmente, comportamento duvidoso. Também fora da estatística oficial, os casos em nossa região são tratados veladamente, como sempre acontece quando se trata de crimes desse gênero, reconhecem dirigentes, clubes e jogadores.
Aqueles que conhecem a prática, se esquivam de denunciar e por se tratar de abusos contra meninos, as denúncias por parte das vítimas também são raras.
A armadilha
Para ganhar a confiança do candidato a jogador, tênis caros, rodadas de pizza, camisetas de grife e smartphones integram o arsenal de presentes para dobrar os jovens.
Para fisgar os pais, travestidos de falsos técnicos e olheiros eles oferecem vagas em equipes de ponta e a fórmula do sucesso no futebol.
Assim agem os falsos vendedores de ilusão no futebol. O alvo preferencial são crianças e adolescentes de regiões pobres cujas famílias, por vezes, fecham os olhos para os abusos, na esperança de que o filho se torne um profissional.
Descaso
Não é de conhecimento público nenhum estudo do Ministério do Esporte sobre o tema e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), órgão responsável pela organização do futebol brasileiro, se exime de culpa. Alegam seus dirigentes que a obrigação da entidade é organizar campeonatos, não fiscalizar times e categorias de base.
Os mais de 650 clubes vinculados à CBF ignoram o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei Pelé que exigem assistência em educação, saúde e bem-estar, além de contrato de trabalho para maiores de 14 anos. Como não há fiscalização, não há punição para os infratores.
Desprotegidos, os
candidatos a Neymares, Messis e Cristianos Ronaldos continuam à mercê da ação
das quadrilhas de molestadores que se infiltram nas divisões de base do futebol
pentacampeão mundial.

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